Seguidores

terça-feira, 28 de julho de 2009

Mortais pecados

Olho-me ao espelho, debruado a talha,
luminosamente esculpida, dourada,
e pergunto-me, pelo espanto das respostas,
na assumida personagem de rainha má,
quem sou, para o que dou, quem me dá.
Miro-me na volumetria das imagens
cobertas por peles enrugadas,
vincadamente marcadas por exageros expressivos
de choros por entre risos
plantados nos ansiosos ritmos do tempo.

Profundos e negros pontos,
poros de milimétricos diâmetros,
sombras cinzentas,
castanhos pêlos,
brancas perdidas entre cabelos,
perfil de perfeita raiz de grego,
boca carnuda, gretada de secura,
sedenta de saudosos e sugados beijos
de línguas entrelaçadas,
lambidelas bem salivadas...

Contemplo-me, fixado no meu próprio olhar,
de cor baça tristeza,
desfocando a máscara de pálido cansaço
e não resisto ao embaraço de narciso;
sou o deus que procurei e amei em cumprimento do milagre
ou o mal que de tanto me obrigar, não reneguei?
Sou o miraculoso encantador a quem me dei
ou a raposa velha, vaidosa, vestida de egoísta,
com estola de alva ovelha, falsa de altruísta?

No meu lamento, a amargura, por que matei;
sangrando a vítima, trucidei-a num ranger de molares,
saboreei com as gustativas variados paladares,
viciado no prazer da gula,
como instintivo porco,
omnívoro...

Rezo baixinho, cantarolando,
beatas ladainhas de pecador,
que rouba e se perdoa
a cem anos de encarceramento.

No aliciamento cobiçante, por belas coxas,
pertença de quem constantemente me enfrenta,
competindo com as mesmas forças,
traindo-me na existência de meu possuir.
Viradas as costas, acabamos sempre por fingir.

Entendo velhos e sábios ditados,
não os querendo surdinar em consciência.
Penso de mim, importância demais,
que outros possam entender,
como comuns mortais.
Minha é a inteligente certeza
de querer enganar e vencer.

Sadicamente esbofeteio rechonchuda face
de idealista tímido,
que acredita e se deixa humilhar;
dá-me a outra, para também a avermelhar.

Vendo-me a infinitas e elegantes riquezas;
luxúrias terrenas, orgias, bacantes incestuosas,
sedas, glamour, jóias preciosas,
o que tenha etiqueta de marca,
marcantemente conotada,
que pavoneie a intensa profundidade da minha alma.
Ah! Ah!...

Salvas rebuscadas, brilhantes, de prata, pesadas,
riscadas de branco e fino pó...
Prostituo-me ao preço da mais valia,
excita-me de travesti Madalena,
ter um guru para me defumar, benzer e perdoar,
sem que me caia uma pedra na cauda.

Adoro o teatro espectacular,
encenado e ensaiado em vida,
mas faço sempre de pobre amador,
sendo um resistente actor.
Escancaro a garganta para trautear,
sem saber, nem sequer solfejar
e gargarejo a seiva da videira,
que me escorre pelo escapismo de meu engano,
querendo audaciosamente brilhar,
descontrolando o encarrilhar do instrumento das cordas da glote,
com o do fole pulmonar,
e desafino o doce e melódico hino.

Sou no vedetismo a mediocridade,
que se desfaz com o tempo,
até ser capaz de timbrar sem ser pateado.

Acelero nas viagens que caminham até mim,
fujo do lento e travo demais;
curvas perigosas, apertadas,
que me adrenalinam na fronteira do abismo.
Fumo, bebo em excesso
e converso temas banais por entre ondas móveis,
que me encurtam a pomposa solidão,
mas nada é em vão.

Tenho na dicção um tom vibrado e estudado
de dizer bem as palavras que sinto,
mas premeditadamente minto
e digo de propósito, sempre o errado.

Sou mal-educado, demasiado carente, enfadonho,
que ressona e grunhe durante o sono.
Tenho sempre o apressado intuito do saber,
de querer arrogantemente chamar a atenção,
por me achar condignamente o melhor, um senhor,
sem noção do que é a razão e o ridículo.

Digo não, quando deveria pronunciar sim.
Teimosamente rancoroso, tolo, alucinado, perverso, mal-humorado,
vejo em tudo a maldade do pecado.
Digo não, quando deveria embelezar a afirmação.

Minto, digo e desfaço-me propositadamente em negação.

Mas, fiz a gloriosa descoberta de meu crescer,
tenho uma virtuosa e única qualidade;
alguém paciente gosta muito de mim.

Obrigado!

Tenho que descansar.

Cio

Olho para a noite
e apaixono-me
sob o encanto
pálido da Lua.
Adoeço em delírio
de imaginação,
vibrando em mim
um forte desejo de amar.
No cio da minha ansiedade
procuro o simples prazer
na pureza de um corpo,
com os vícios do espírito.

Estrelas perdem-se na noite,
planetas bailam na noite,
misturam-se de nuvens
para cobrir sua nudez.

E na grandeza do espaço
apaga-se a noite,
por detrás de um dia.

segunda-feira, 27 de julho de 2009

Metamorfose

Sento-me
debaixo da velha árvore,
procurando na sombra
a calma que me proteja
do brilho dos olhares.

Só,
medito sem tempo,
devagar.

Debaixo da velha árvore,
que me obriga a não pensar,
perco-me em perguntas
sem conclusivas respostas,
pelo desejo de saborear
os pormenores da fantasia.

Amo-me,
de tanto me sentir bem,
por tanto acreditar.

Debaixo da velha árvore
sonho com a liberdade,
com a força que me faça recriar,
sem conceitos de verdade,
na plena afirmação de viver.

Debaixo da velha árvore
a sombra que me protege
e me estimula
à luminosidade
da divina transmutação.

Última ceia

Quero parar com esta roda da fortuna,
que me é tão lenta, num ranger de pesada.
Quero viver na simplicidade de uma história
abundante em afectos não forçados, sem dor,
com as fadas da minha memória,
num lugar longínquo no tempo,
onde possa inspirar a refrescante brisa
e descansar num lençol de areia,
ao som do beijo das ondas,
perfumado de azul e algas,
numa tarde de final feliz.
Sem ter medo,
da passagem, ao relento,
sob o breu de uma noite despida
de estrelas e luar,
para o infinito e iluminado dia.

Não sou o principal,
mas o duplo de confundíveis identidades,
de comportamentos
e de argumentos falidos de diálogo,
por entre as cores nítidas da vida,
dos cenários paradisíacos,
em desejos e de sonhos idealizadas...

No descontentamento de mim,
contraceno em esquerda alta,
com o abandono austero do interesse
e acabo esmagado por uma plateia
de amadores expectantes.

Ainda presa, no palco dos reinantes,
ofegantemente respiro por um fio,
faltando-me a navalha da coragem...

Caia o pano,
e finde de vez, esta última ceia.

Não se nasce Deus

Personificar Deus,
humanizá-Lo,
tridimensioná-Lo...
É racionalizar a fé,
dogmatizar o espírito,
cegar a pureza da alma,
convencionar o corpo,
hierarquizar os filhos da vida,
aprisionar a mente à verdade corrompida,
escravizar a evolutiva inteligência,
o convencimento à limitação,
a sofrida punição pelo inatingível,
viver em culpa, sem desculpa,
instrumentalizar a criação,
instituir a liberdade do amor,
o hipócrita direito à santidade,
a enganosa salvação dos escolhidos,
subverter o poder em Seu nome,
hermatizá-Lo entre paredes e credos,
matá-Lo de fanatismo e desencontros...

Não se nasce deus...
Ele está em toda a parte.

Hei-de encontrá-Lo
em mim
e por mim,
nos mandamentos d`Eus.

Resto de gente

Sou um pedaço de vida
deitado na Sombra
de uma multidão,
sou força vencida,
mergulhada e perdida
em desilusão,
sou dor viciada
em choro e pranto,
sem poder fugir,
sou no sofrimento
o espelho do tempo,
sem nunca o medir.

Sou um rosto secreto
e incompreendido
na palavra sim,
sou um resto de gente,
vergado ao silêncio,
não se riam de mim,
sou povo enjeitado
em nudez de encanto,
carrego minha cruz,
sou um fado pesado,
sou compasso trinado,
sou um canto sem luz.

Se digo o que sinto,
se minto no que sou,
não o faço por querer,
não me disfarço,
nem me escondo,
no falso sentido
do que acabo por ser.
Se me dou e me desfaço,
se luto esquecido
e vivo insatisfeito,
sou no cinzento tristeza,
verbo conjugado
no pretérito imperfeito.

Sou um rio parado,
sem margens, sem leito,
sem fundo, sem foz...
Uma barca sem remos,
sem redes, sem leme,
sem velas, sem nós...
Sou tarde poema,
de versos sem rima,
lenta de se pôr,
sou por entre o nevoeiro,
o que desaparece
e se apaga de cor.

Sou um resto de gente,
o que sobra do início,
o que falta para o fim,
vergado ao silêncio,
não se riam mais de mim.

Criar

Criar é uma forma de amar,
de dar e ser possuído.
É a explosão que vem do nada,
a divisão infinita das ideias
na multiplicidade de todos os sentidos.
É a fantasia da alma sofrida,
marcada pela realidade da carne.
É o entendimento do espaço no tempo,
na sensibilidade compactada de vontade sem limite.
É a força espontânea
da incontrolada angústia de viver.
É a transparência da semelhança
que se nos sobrepõe.
É o envelhecimento do espelho,
quando mais nada resta de nós.

E Deus
criou o homem à sua imagem,
para que ele criasse a sua própria vida.

Cicatrizes

Vejo a face marcada e dura da tua dor,

ouço os uivos repetitivos da tua raiva,

sinto o desepero amargo dos teus sentidos

e dói-me o negro acutilante das verdades

que carregas como culpas,

dos valores calcinados,

corrompidos de eternos ódios e rancores.

Presa fácil, de ingenuidade,

das desconfianças e credos,

fechada no labirinto das paredes

cobertas de antigo e de medos,

numa teia de fraquezas e vícios,

na recusa de rasgar uma fresta

e de se contemplar em admiração,

desnudada de complexos e mitos,

na corrente de mãos dadas com o mundo.

Destruido pelo conflito de ser vencido,

apaixonado sem amor,

temendo receber o que não sabe oferendar


O tempo da idade

A verdade do tempo
condiciona a liberdade de viver.
Cronometramos a existência em silêncio,
com a ilusão da imortalidade,
retardando as rugas
na aritmética do experimentalismo.
Persistimos na imaturidade do embrião,
sofremos da síndrome do umbigo.
Acreditamos que tudo ainda é lento,
quando já tanto escasseia.
Continuamos a negar as imagens do espelho,
concentrados na aparência
e favorecemo-nos à objectividade do momento.
Confundimo-nos no crescimento
de quem nos quer alcançar
e recriamos o longe
a quem está tão perto do fim.
Envolvemo-nos de elixires e deuses,
combatendo a frustração da esperança.
Acompanhamos expectantes,
em angústia as passadas da genética,
e estimulamos a virilidade laica da ciência.
Escondemo-nos das origens,
entretidos no pretensiosismo civilizacional.
Somos animais,
mamíferos,
emocionais,
com terminações nervosas,
frutos do pó da terra,
criados à imagem
de um Pai artista,
mas incógnito,
e enteados de Darwin.

A força do medo

Na fraqueza da minha protecção,
tento resistir sem estratégia ofensiva
às incertezas do amanhã.
Nesta agonia
a força do medo
vence o brilho do Sol.
Apago-me de consciência,
num tormento
que me fortalece a cobardia.
Cansado de não lutar,
vou-me afastando no tempo,
esperando que surja sempre
a fortuna de mais um dia.

O presente

Necessito voltar ao passado,
viver um breve momento,
o mais comum,
o menos importante,
só para sentir-te,
e amar,
aproveitar esse presente.

Nesta pena
revivo pedaços isolados
de tudo o que sou,
choro com saudade
o que não serei,
sem conseguir retornar
ao longínquo passado
e mudar o teu presente.

Afogando sonhos

Morro
sem saber de mim,
sem ninguém me encontrar,
perdido no escuro
do teu silêncio,
com lembranças
de sabor salgado...

Morro,
triste, de tão só,
deitado sobre areias de egoísmo,
na praia das fantasias,
sem dunas,
de ondas nunca festejadas,
sentindo-te no movimento do mar...

Morro
sem saber de nós,
afogando sonhos,
devagar,
devagar,
devagar.

Canto proibido

Num sopro de alegria,
sem a métrica do tempo,
o canto pronunciado
por entre o vermelho
erógeno dos lábios.
O bafo quente das sensações,
em chilreados sons,
soletrando mágicas
e ardentes palavras
da cor dos sentidos da vida,
que fluem do labirinto
das imagens proibidas da memória,
espelhadas por entre sonhos,
desespero, dor, desilusão...
É o desejo que emerge,
no grito que pelo silêncio
fora calcinado,
que dá forma a um corpo inteiro,
despertado para a glória do amanhã,
coroado e iluminado de estrelas
dos tectos de cada céu.

Em uníssono cantaremos
embriagados sem saudades,
despidos de grades,
limpos de espinhos,
esquecidos de preconceitos,
persistindo no deglutir do fruto
que nos tirou a liberdade
de saborear o pecado
e sermos gente desprotegida
pelos donos de uma trama
e de um inimaginável jardim.

Renascer de mim

Envolto por uma nuvem
da cor do sossego,
num céu carregado de anil,
raiado de violeta,
como feto dentro de mater útero,
luto instintivamente,
em desespero,
para sobreviver
sem dor ao parto.

Nasço, enfim,
sete luas antes do desígnio,
depois de uma gestação
de três infindáveis invernos
e de quatro não chilreadas primaveras.

Ainda não sei se nasci
ou se são as memórias
de ter morrido.

Pouso na suavidade do berço
as cansadas emoções,
sem saudade,
nem lembranças...

Quero olhar o firmamento
e perder-me a contar estrelas,
mas de pé,
seguro pela Terra.

domingo, 26 de julho de 2009

Procura

Dói-me nas palavras
o sentido que não emprego,
a vontade que encubro.
No significado vazio
dos meus sentimentos,
sinto-me perdido,
sonhando com a coragem
de me encontrar.
Doiem-me as memórias
deste corpo envelhecido de crescer,
que espera sucumbir,
compreendendo a pureza do amor.

Desencontro

Hoje, não consigo dizer-te nada.
Esforço-me e não consigo pensar.
Perco-me no desejo de falar-te,
luto com as palavras,
sem que as soletre,
vejo-te sem palavras,
para me ajudares.

Perturbado pelo silêncio,
caio num sono profundo,
esquecido de ter que acordar.

Voyeur

De dia,
passeio-me pelas ruas,
intruso,
anónimo,
vestido de multidão,
matando a curiosidade
instintiva dos sentidos.
Retratista promíscuo;
olhar disfarce
de vazio abstracto,
calçando o tempo,
sobre a solidão da caminhada,
captando ângulos e planos,
imagens à contemplação certa
do prazer erotizado.
Rostos belos,
de semblante perfeitos,
expressões despidas de agrado,
sem sorrisos esboçados de submissão,
não forçados...
Corpos puros,
desnudados pelo suor,
de transparência atrevidos,
escorreitos de ingenuidade,
mexidos de desejos,
talhados de vivas formas,
curvas apertadas
de desenho intenso de paixão,
bem delineados,
na arte da procriação...

À noite
deleito-me,
embalado por estímulos inteligentes,
por palavras que me ditam
sentimentos profundos,
que se articulam silenciosamente
por entre erógenos lábios,
ao sabor da imaginação,
em galopante fantasia...
Provoca-me
a insinuante sabedoria
de quem quer ser entendido
e excitar-me ao crescimento...

Adormeço,
entre as memórias
de um inesquecível dia,
com o livro aberto
em parte incerta.

Jardim da vida

Que os ventos da esperança
soltem as folhas da paz
e que amadureçam os frutos do amor...
Que seja a nossa alma
lavrada e aberta,
nasçam da semente
raízes de um novo tempo,
palavras árvore,
de troncos sabedoria,
sem os genes do Génesis;
sem serpente,
nem pecado...
No jardim da vida,
de luxuriante primavera,
com cânticos de louva-a-deus.

Ainda é tempo

Não se herda a pobreza,
cresce-se de cegueira,
sofre-se submisso à culpa,
respeita-se em contrariedade,
a arrogância do preconceito,
sonha-se a dormir,
corre-se de pé,
luta-se com medo,
estimula-se o amador,
nega-se a aventura,
silencia-se o desejo,
foge-se do amor.

Cobre-se de negro
o espelho que reflicta
a coragem da alma,
habita-se na solidão
de um metro quadrado
e morre-se rodeado de gente,
no arrependimento
de nunca se ter vivido.

Impera a inteligência do Espírito,
ainda é tempo de abundância,
na riqueza de ser feliz,
diferente,
Eu.

Chuva

Dia de chuva,
alma triste e molhada,
são rios de rua,
cúpula de mágoa rasgada.
O Sol trocou-se de nuvem,
tão cedo entardeceu,
são cheias de ninguém,
enxurradas do eu.
Trovoadas de espanto,
vendavais por meu degredo,
na tempestade deste meu canto
soam os trovões do medo.
Sonhos ansiosos por bonança,
em arrepios de solidão,
acendalham-se de esperança
lareiras de multidão.
De arco-íris se alterou
o confuso azul do céu,
a vida depressa enxugou
e o meu dilúvio morreu.

Pausa

Esta é uma pausa triste,
é silêncio que incomoda
a qualquer momento,
é desespero
pela imaturidade
da compreensão,
é conter o impulso
da racionalidade,
é uma morte
indesejada,
é continuar a amar-te
e a sofrer,
mesmo sem nada,
é uma noite
escura de tudo,
em profunda solidão,
na saudade
de ser dia,
ontem.

Tenho tanta pena de nós.

Resplandecente

Hoje,
foste a alvorada
mais resplandecente
que despertou
os meus sentidos.
A tranquilidade
que animou,
em vontade,
a minha alma
já apagada,
por tantas derrotas
e desilusões.
Estou orgulhoso de ti!
Gosto tanto do teu sorriso
aberto para o mundo,
e feliz,
agarrando vida,
na riqueza da expressão.
És ainda mais bonita;
um arco-íris
que sobressai
do meu enublado cinzento,
em feixe de ternurenta paixão.

Fuga

Foste rio,
correndo pelo vale
dos meus sentidos,
tocando e preenchendo
as minhas margens,
arrastando na corrente
as minhas mágoas,
onde matava a sede;
no leito maior da tua essência.
Rodeado
pelo horizonte de teu corpo
sentia a brisa quente,
de quem expira
com ternura,
sopro que deslizava
na minha pele,
num deleitável
e breve encontro.

Eras o Sol do meio-dia,
brilhando por cima de minha vida.

Não sei por que fugi,
procurando na sombra a protecção,
refugiando-me alucinado
no crepúsculo da tarde
esquecido e perdido de ti.

Acabei por morrer
na noite mais longa de escuridão,
por que nunca mais voltou
a ser dia dentro de mim.

Espelho meu

Quero curar-me
das crostas empedernidas,
e das chagas que teimam
em não cicatrizar,
envoltas de pus,
infectadas de raiva...
Quero
ter na vontade
o segredo da cura,
a percepção do tempo da dor,
resistir à constante comichão,
para não voltar a sangrar
ao pôr o dedo na ferida,
no escarafunchar do confronto
com as mágoas.

Quero uma pele limpa de cicatrizes,
sem vincos de receios, mal dormido,
sem rugas de tristeza guardada,
sem golpes, que me trespassem a alma...

Quero que seja o espelho, que me mire.
Olhá-lo?!...
Não pretendo mais magoar-me.

Beijo da luz

Esta ilusória paz
de compreensivos afectos,
que acompanha o lento
e belo Sol estival descendo
num milagre de ouro e escarlate,
afundando-se nas profundezas
do mar de meus enganos,
defronte à minha alma...
E fica a saudade,
depois do beijo da despedida,
no tocar suave o contorno
de infinitos e horizonte lábios.

E eu, arrefecendo no escuro,
persistindo noite,
esperando sentir a coragem
de um firme e convicto impulso;
o beijo da luz
que me faça transpirar
e sentir dia,
na plenitude do tempo.

Solitários

A alma não tem sexo.
O sexo não tem corpo.
O corpo é espelho,
que reflecte a força
da inteligente capacidade
de explorar, sentir, vibrar,
em êxtase,
as alegrias do prazer,
da partilha, em amor.

Assumidos desejos
e vontades,
vencendo lutos e medos,
a hipocrisia dos frustrados;
solitários empobrecidos,
incapazes de descobrir a felicidade
em seu enfraquecido coração,
já cansado de não saber dar,
nem tão pouco receber.

Amar...

Amar,
criar raízes ao tempo,
entrelaçadas de carinho,
envolvidas no ventre da terra mãe,
com a força dos sentidos,
no silêncio de todas as palavras...
Explodindo troncos
de verdejantes primaveras,
com a promessa das sementes,
sob a simbologia
dos códigos indecifráveis
dos céus e deuses.
Amar,
ser possuído
pelo místico e enternecedor
sorriso da paixão,
visível no oriente secreto
das manhãs douradas
de nossas esperanças,
onde a consciência se levanta, confusa,
por entre neblinas de desejos
e brisas de doces emoções,
espelhando-se de luminosidade,
na cheia e fecunda Lua,
que se recolhe de tímida,
no horizonte do passado,
de nossas (in)seguranças.

Amar, interdepender,
é na perplexidade da sobrevivência,
a saudável virtude
de transcendermos os nossos medos,
o casulo de nossa solidão,
no feliz e inesperado encontro,
com quem toda a vida nos procurou.

Não saber ser de mim

Procuro matar saudades,
sem descanso que viva.
Não me sei preencher
do vazio que de ti sobrou.
Varro da memória,
o longe,
o não querer entender,
não saber ser de mim,
no sonho que se enriqueceu de nós.

Acho na (des)ilusão
o esconderijo para o sofrimento
e tardam as palavras...
Continuo preso
na esquina do só,
ouço as passadas de teu caminho
e percorro entristecido
o labirinto construído de medos,
sem abrir as janelas ao sossego.

Julgo a pretensão da culpa
pelo desejo de partilha,
em detrimento
de teu defensivo orgulho.

Aguardo,
que me descubras,
sem olhar o movimento do relógio.

Cobardia

Observo impune,
critico abusivamente,
condeno inflexível,
culpabilizo sem dor,
recrimino sem piedade,
forço a confissão,
propagandeio a ameaça,
difamo aos ventos
e em pública praça.
Invento o que me convém,
exagero no pormenor,
omito o que serve a dúvida
e atiro a primeira pedra.

Quero um marginal,
não perdoável,
um alvo fácil
de se corromper,
que não se defenda,
onde eu me proteja,
mascarando a cobardia...

A revolta indignada
é o reverso do medo.
Aproveito-me da vítima,
para de mim me esconder.

Ai, que de mim, ouça nada!
Quero ser como me dou,
nunca parecer o que sou!

Conteúdos de amar

Procurei no tempo
a vontade para me amar;
nunca encontrei horas,
nem dias disponíveis.
Vivo multiplicado
de insatisfação,
cedendo à exigência,
de quem frustrado
ama a minha obediência,
o meu perturbado silêncio,
e castigo o impulso do não.

Viciado no prazer dos outros,
sou o enforcado,
estrangulado de anulação...
Ou o ramo da virtude,
que se quebre
com a obesa dor
e caia na liberdade
de quem me queira bem,
de quem me oriente
no caminho não periférico
de meu amor.

Não há formas de ser,
mas conteúdos de amar.

Escadas

Olha-os, lá de cima,
onde habitas
transitoriamente
na tua evolução.
Não percas tempo
no degrau
por ti, já pisado,
no longínquo passado.
Eleva-te com firmeza
no lance seguinte.
Apoia-te no corrimão,
alcança o patamar
e abre essas portas
de provações trancadas.

Que mania
de descer e subir
escadas...

Fui criança

Fui ver-me
no jardim a brincar,
pedalando com vontade
o triciclo da esperança,
a sorrir.

E chorei.

Saudades
daquela criança
e do mundo
que sonhei.

Não sei

Eu pensava de ti,
o que querias sentir.
E acreditava no que via,
quando exibias para mim,
o que em ti desejava.

Eu não sei
quem tu és.
Tu, também não.

Cadeado

A valorização crítica,
e excessiva,
que deposito na envolvência
íntima dos afectos,
não será somente
a projecção dos meus medos,
pelo indecifrável
das minhas inseguranças,
mas também do meu
incontrolável egoísmo,
na incapacidade de assumir
as cotas da minha culpa.

Eu tenho a chave
que me pode destrancar
e fazer sair da cela do meu orgulho,
da solidão.

Difícil será acertar na ranhura
deste ferrugento
e desusado cadeado.

Tentarei
as vidas que forem precisas.
Em liberdade
poderei cair de novo,
na armadilha idealista e contraditória
do oceano da minha afectividade,
e afundar-me de paixão.

Idealista

No desejo de sonhar e acreditar
no lado sublime do ser,
tropeço nas supostas verdades
e caio magoado no chão do inevitável.
Somente eu,
recusei-me a ver.
Esgoto-me em dádiva
com a determinação
de um vencido.

Sou pobre,
de tesouros,
cheio,
ainda por abrir.

A chave
é o tempo.

Presente

Vendes-te ao desafio
de teus instintos
e vazios desejos,
como se nada
de mais possante
e sublime
existisse em ti.
Tens medo
das verdades
da face interior
de tua persona.
Optas,
por viver
resguardado
na Sombra
e numa trama
de silêncios
e pausas...

Finges a perfeição,
quando se deve ser
humano.

O caminho
é desbravado
em cada passada,
na tranquilidade
de cada momento,
erecto,
atento.

Por vezes,
deixa-se para trás,
demasiado rápido,
o presente,
sem questionar
a sua preciosa riqueza.

Parecidos

Somos todos iguais,
mas queremos persistir na diferença,
ser no pretensiosismo
mais parecidos
com os que são únicos,
deuses, imortais...
Acabamos por pecar no original;
mata-borrões convencidos,
menos idênticos
na simplicidade da verdade.
Cópias de manchas
não definidas, negras,
repetidas de imperfeição,
algumas já sumidas,
convictas de lucidez
e sabedoria,
apregoando teoria,
explicitando experiências,
tudo o que foi aprendido, sofrido,
dominando sapiência,
a moralidade do amor,
o conhecimento de bem sobreviver...
Ocultando às claras as suas tocas,
malabaristicamente estimulando, fingindo,
idealisticamente criticando,
numa terapia de quem se procura na utopia,
acreditando ser único,
o melhor,
e eterno.

Surdez

Desejo a todo o momento,
que se quebre o silêncio.
Procuro em todos os sons
a cura para a minha surdez.
Louco por nada ouvir,
por nada saber,
crio a melodia da solidão
ao ritmo incerto do tempo,
em acordes de dor e medo.
Difícil será ouvir de novo,
com a mesma vontade.

Ensaio na razão
o barulho que liberte
os recalcados ressentimentos.

Fingidor

Escrevo-me
todos os dias,
e passo-me a limpo
para o papel,
quando tenho tempo
para fingir de poeta.

A minha caneta
está esgotada
e sem tinta.